NA HISTÓRIA DAS PALAVRAS E COMPORTAMENTOS DO SER HUMANO
Era uma vez… três grandes amigos, a Joaninha Avoavoa, o Grilo Grillus e o Pirilampo Cagalume.

Estes bons amigos e companheiros no dia a dia, viviam na Horta das Sete Quintas que, embora situada numa aldeia a poucos quilómetros da cidade mais próxima, ainda conservava muitas das suas características rurais que a tornavam tão pacata e pitoresca.
Virada a sul, num espaço solarengo e muito acolhedor, ladeada de belíssimas plantas aromáticas, medicinais e condimentares, a pequena horta tinha também algumas árvores de fruto e uma boa variedade de hortaliças e legumes, permitindo assim, um ecossistema mais ou menos equilibrado, onde ainda era possível levar a vida sem grandes sobressaltos.
Os três amigos sabiam que viviam num paraíso e que eram uns sortudos, como no seu habitat não eram utilizados pesticidas, apenas se preocupavam com os inimigos naturais. Por aquelas bandas só se morria de velhice ou então... transformado em acepipe ou até mesmo, prato principal de algum predador natural.

Estes amigos tinham muitas coisas em comum, mas o que mais os unia e caracterizava era sem duvida a curiosidade, a fome do saber e sobretudo, o prazer de sonhar com os olhos abertos.
No entanto e apesar de raramente se aventurarem por outras paragens, fartavam-se de viajar, partilhavam a imaginação que voava sem barreiras nem fronteiras até ao mundo onde tudo é possível.
Depois dos afazeres quotidianos, era hábito reunirem-se por entre a folhagem densa e fresca da laranjeira, onde se embrenhavam e escondiam do sol abrasador nas cada vez mais quentes tardes de verão. Lugar onde costumeiramente travavam longas conversas e onde também muitas vezes se perdiam no tempo, como se o tempo não existisse.
Pensavam, discutiam, trocavam ideias e costumavam ter muitas ideias, umas melhores, outras piores e outras mesmo, um tanto ou quanto estapafúrdias.
Um dia, surgiu-lhes uma ideia que lhes pareceu ter boas hipóteses de ter pernas para andar, aos poucos e passo a passo, foram trabalhando e desenvolvendo um jogo muito simples de mímica e adivinhação, onde interagem as expressões e os ditados populares, com o alfabeto gestual.

Deliraram de contentes os três amigos e, logo se propuseram construir artesanalmente os protótipos. Várias tentativas foram feitas até ficarem prontos e de acordo com o que tinham idealizado. Foi então, que resolveram procurar quem também se interessasse pela ideia, arregaçaram as mangas e... mãos à obra!
-Ala, que se faz tarde! Disse o Pirilampo Cagalume.
-Só alguns seres humanos é que costumam ficar à espera que alguma coisa caia do céu!
-No reino animal isso não acontece. Acrescentou o Grilo Grillus.
-Todos têm as suas funções e ninguém deixa de cumprir com as suas obrigações!
-É isso mesmo! Arrematou o Pirilampo, todo empertigado.
-Quem não trata de garantir a sua sobrevivência, morre de fome!
-Amigos! Sabiam que a língua gestual não é universal? Perguntou a Joaninha, mudando o rumo da conversa.
-Ai não? Exclamaram os dois com ar bastante admirado.
-Não! Cada país tem a sua própria língua gestual e com variantes dentro do próprio país… desenvolvem-se da mesma forma que as línguas orais e também têm gramática e vocabulário próprios…
-Uauh! E todas as pessoas falam língua gestual? Perguntou o Pirilampo cheio de curiosidade.
-Não, as pessoas também usam gestos para comunicar, mas praticamente só as pessoas surdas é que sabem e utilizam a língua gestual, o que as torna quase como que estrangeiras no seu próprio país, quase que não existe comunicação entre os humanos que ouvem e os que não ouvem. Esclareceu a Joaninha Avoavoa.
-Que coisa mais estranha, não dá para entender os humanos, não admira que o mundo esteja de pernas para o ar! Disse o Pirilampo, estranhando tal facto.
-Os humanos são mesmo muito estranhos! Opinou o Grilo Grillus.
-São seres muito complicados, embora não estejam em vias de extinção porque cada vez são mais, estão no entanto, cada vez mais à beira de acabar não só com a sua espécie, mas também com todas as outras. Têm comportamentos e costumes completamente contranatura…por exemplo, deitam fora o que é bom e depois matam-se a trabalhar para comprar coisas que não prestam!
-Porque dizes isso? Quis saber o Pirilampo Cagalume.

O grilo olhou para os amigos e em vez de responder, perguntou:
-Conhecem o ditado popular que diz: “Na natureza nada se perde, tudo se transforma?!”
-Sim! Responderam os dois em uníssono.
-Quem é que não sabe isso. Acrescentou o Pirilampo meio enfadado.
-Ora bem! Prosseguiu o Grilo Grillus.
-Os ditados populares existem desde o tempo em que os seres humanos ainda não sabiam ler nem escrever e utilizavam frases quase sempre em rima para melhor fixação. A sabedoria, a experiencia e o conhecimento adquiridos, eram assim transmitidos de boca em boca, de geração em geração ao longo dos tempos.
Com o surgimento da Revolução Industrial em meados do séc. XVIII, iniciaram um processo de negação e começaram a fazer tudo ao contrário...
-Que revolução foi essa? Perguntou o Pirilampo, muito interessado.
-A Revolução Industrial teve início
em Inglaterra. Continuou o Grilo Grillus.
-Quando os humanos começaram a inventar e a utilizar máquinas para fazerem muitos dos trabalhos que até aí eram realizados por eles próprios, no entanto e infelizmente, começaram também a mudar e a renegar muitos dos comportamentos e costumes até aí aprendidos, ao mesmo tempo que foram desenvolvendo a inteligência, também se foram afastando da natureza e das suas raízes...
-O humanos são mesmo loucos! Opinou o Pirilampo, não aguentando ficar calado.
-Por exemplo! Continuou o Grilo, tentando concluir o seu raciocínio.

-Actualmente, os humanos tratam dos espaços verdes e varrem as folhas que caiem das árvores, cortam a relva, arrancam as ervas daninhas, fazem podas ou retiram as partes secas e mortas das plantas, e depois... deitam fora todos estes materiais a que chamam de lixo. Ora, estes materiais depois de decompostos, fornecem às plantas nutrientes necessários à sua sobrevivência. Retiram às plantas o seu alimento natural, produzido por elas próprias e vão comprar adubos químicos para lhes dar de comer!...
-E não só! disse a Joaninha, que não resistiu em meter a sua colherada.
-O reino vegetal, tem capacidade de sobreviver por si só, é auto-suficiente ou seja as plantas são seres autótrofos, ao contrário dos seres humanos que são completamente dependentes do mundo vegetal, não só para se alimentarem, mas também e até para respirarem!
-Então, e nós? Questionou o Pirilampo Cagalume.
-Também precisam dos animais, nós também somos muito importantes!
-Sem duvida! Concordou a Joaninha Avoavoa.
-Todos os animais são importantíssimos, nomeadamente os insectos, que desempenham actividades especificas e contribuem no garante do equilíbrio nos ecossistemas. As nossas amigas abelhas por exemplo, são responsáveis pela polinização de cerca de 80% das plantas utilizadas pelo ser humano. No entanto, estão a ser dizimadas devido aos químicos usados na agricultura e que inevitavelmente ingerem através do pólen e do néctar contidos nas flores. Os humanos não têm consciência do quanto estão dependentes delas e se desaparecem não é difícil imaginar as consequências.

-Mas… isso seria uma catástrofe! Disse o Pirilampo com um ar um tanto ou quanto assustado.
-Pois é meus amigos, o futuro do planeta terra está nas mãos dos humanos! Proferiu o Grilo com ar resignado.
-Não dá para entender os humanos! Disse mais uma vez o Pirilampo Cagalume.
-Têm uma mentalidade muito tacanha e dizem à boca cheia, que eles é que são os inteligentes…
-Atenção meus amigos! Disse a Joaninha, interrompendo o clima de dissertações.
-Vamos lá voltar à vaca fria, ok?! Tenho a sensação de que quando se fala no alfabeto gestual, se ergue logo uma barreira!...

-Pois é, tens razão! Concordou o Grilo Grillus.
-Dá a impressão que pensam que o jogo é para pessoas surdas e não é nada disso.
A partir dos cinco/seis anos todos podem jogar, independentemente do sexo, religião ou classe social! Quis salientar o Pirilampo, aproveitando a oportunidade para mais uma vez mimar o alfabeto e mostrar as suas habilidades.
-O alfabeto é mesmo muito divertido e fácil de mimar! Disse o Grilo a sorrir, ao mesmo tempo que apontava para o amigo.
-Além de ser uma forma de desmistificar o bicho-papão que é a língua gestual, ainda contribui nem que seja só um pouquinho na aproximação destes dois mundos tão distantes…

-Bota distante nisso… se ninguém percebe patavina de língua gestual! Disse o Pirilampo, interrompendo de novo o seu amigo Grilo que, de repente dá um salto e com ar de quem acaba de ter uma ideia brilhante, grita de contentamento:
-Eureka! Tive uma ideia! Agora temos mais um motivo para não desistirmos, vamos chatear toda a gente e derrubar essa barreira, já repararam que o alfabeto gestual pode ser como que um estojo de primeiros socorros da língua gestual!
-É pá, hoje estás mesmo inspirado. Brincou o Pirilampo Cagalume.
-Sabem uma coisa?! Perguntou a Joaninha, sugestionada com a animação do amigo.
-Concordo contigo, já sinto o pulular da motivação… vamos à luta!

Embora por vezes menos animados, não deixavam de acreditar na sua ideia, meteram mãos à obra e resolveram cada um contribuir com o seu pé de meia, que embora pouco, tudo junto dava para pelo menos mandar fazer alguns jogos e assim tornar a ideia mais credível, mais fiável e consequentemente com maior aceitação, pensaram eles.
Depois de chegarem a acordo sobre o nome “MiMódito”, com o qual resolveram batizar o jogo, e ultrapassarem algumas contrariedades que sempre acontecem a quem se propõe fazer alguma coisa, a ideia deixou de ser apenas uma ideia, passou por uma metamorfose e foi transformada em baralhos de cartas.
No dia em que os três amigos, viram a sua ideia materializada, deram pulos de contentamento e fizeram uma festa, convidaram os amigos e celebraram até noite dentro.
A Joaninha Avoavoa, até fez uma canção:
O trabalho pode ser um prazer
não dá para viver sem trabalhar
Descobre o que gostas de fazer
e então o trabalho é só brincar
O mundo está em perigo podes ver
não dá fechar os olhos e negar
Para teres no futuro um bom viver

arregaça as mangas e começa a trabalhar
Nós fazemos o que temos de fazer
não dá cruzar os braços e esperar
o nosso lema é: vive e deixa viver
no mundo toda a gente tem lugar
Nós somos três amigos a valer
e usamos a cabeça para pensar

Criamos um bom jogo com saber
e todos vão saber o que é mimar
Os gestos são fáceis de fazer
O alfabeto não tem nada que enganar
Os ditados tem muito que dizer
e agora todo o mundo vai jogar
O trabalho dos três amigos ainda não acabou, pelo contrário, agora é que vai começar a sério,
Já fazem planos e discutem ideias, é preciso divulgar e espalhar os jogos Mimódito
Ideias não lhes faltam e vontade também não!